30 agosto, 2009


Deixa

Há dias
Em que mais longe se vai
Quando não se vai
Quando se deixa levar
Quando agradecer
Vem antes de pedir
Quando se sente dor
Com devoção
E venera-se seu poder
De mudar
De transformar
E de cura

Há paz no meio da guerra
No meio da lama
No coração de um desgraçado
É tudo uma questão de reconhecer
Que compartilhamos
O controle da vida
Com a própria vida.



Ingrid Oliveira
24/08/2009

09 julho, 2009


Música de você

O meu dia nem raiou e essa cólica discreta
Me percorre um calor
Como no dia em que me beijou
e sorriu com minha reação
Sonho estar em seus braços
e assim estou livre
mesmo presa a uma não realidade
penso nos por quês
que nunca irei compreender
e jogo no fogo a esperança exasperada
No seu cheiro
que na minha memória resiste, reside
a minha doce compreensão
daquilo que não posso ter
e ainda não posso deixar de amar
de quem não sei como foi o dia
a quem sinto quando falta o ar
a quem entreguei
o que não podia dar
de quem não posso esperar
ao menos um olhar
Minha solidão
é a escolha de não mais acreditar
é a necessidade
de me ausentar
do amor que não compreendo
que me é irreal
do contato simples, banal
Meu amor é coisa íntima
incompartilhável, profundo e infindável
amargo, puro e infalível
Amo-te em carreira solo
e em minha alma
descansa a sua presença irreverente
algumas colcheias e
semifusas confusas
e assim
acompanhada
por seu perfume e pela música
não me sinto mais sozinha.

Ingrid Oliveira
09/06/06

Desafogar

O tempo cura ou destrói tudo?
E o destruir de tudo
é ruína?
é tragédia?
é o pó?
Caminho em pensamentos vagos
para esquecer a dor
mas ouço seus passos
a me acompanhar
e vem
sedento de nada, como eu
bebo de paixões alheias
quase a me afogar
numa golada em amores falsos
que se fecham sob pilhas de celulose
Órgãos partidos, defeitos nus
crises torrenciais
dores exponenciais
partindo, quebrando, moendo...
enquanto tentamos manter a ilusão
de ainda haver ar
sob toda essa água
e permanecemos
imersos na não gravidade
do acaso.

Ingrid Oliveira
08/07/09

Estagnado

No inconsciente repousa, inconstante e improvável,
um desejo
profundamente real
e dolorosamente irrealizável
Dorme entre sonhos e pesadelos
de um futuro que nunca virá
além de dentro de uma mente cruelmente masoquista
E absorta em não realidade, conformada
de sua não possibilidade
de sua não condição
de sua não vida

Como se uma única parte, extremamente pequena,
mantivesse as funções vitais
por uma questão obviamente instintiva
e incontestavelmente inútil

A morte não se resume
À não função vital,
Á não regeneração celular
Á não possibilidade de mutação
Talvez venha antes,
quando as lágrimas já não fazem mais sentido;
quando os medos tornam-se companhias
na escura solidão resignada
de pensamentos lamacentos
meticulosamente planejados
para tornar a dor real
menor do que a dor psíquica

A morte é mais
e mais sensível que o toque
e vem quando se decide que venha,
quando a morfina
passa a fazer parte do organismo,
quando os poros entopem de angústia,
quando o torpor é mais poderoso
que toda a vontade antes regente;
quando a dor
é maior que a prece,
maior que a fé
ou maior que a vontade de te-la de volta

A morte não é
a ausência de dor,
nem de possibilidades,
nem de felicidade
é só uma ausência
numa constante infinita
sem saída
e sem explicação.

Ingrid Oliveira
06/07/09

12 junho, 2009

Receita de clonagem


Alquimia

Quem é você?

35 l de água
20 kg de carboidrato
4 l de amônia
1,5 kg de cálcio
800 g de adenosina
250 g de sal
100 g de nitrogênio
80 g de enxofre
7,5 g de flúor
5 g de ligas metálicas
3 g de silicone
15 g em porções de materiais

São estes os componentes químicos de que humano adulto é feito.
E ainda assim ninguém conseguiu "criar" um homem.

Será que não é porque está faltando algo?

O que faz de nós mais do que componentes químicos?
O que faz de nós mais do que matéria-prima com embalagem decorada?
O que faz de você alguém diferente de mim se somos moldados a partir da mesma argila?

Aprenda bem a receita.
Estude bem os ingredientes.
Mas antes pense...
Será o suficiente só criar um ser humano?
E se o fizesse não desejaria alterá-lo, melhorá-lo, aperfeiçoá-lo?
E quais seriam os seus critérios de perfeição?
Independente da existência de Deus a Natureza possui Leis perfeitas.
Tente.
E quando estiver quase próximo da prova...
Ainda assim faltará algo.

Nada se cria, mas talvez nem tudo se transforme.

Ingrid
20/06/06

Os pesadelos sempre parecem mais reais que os sonhos


Acordar no pesadelo

Um gota
na escuridão
o eco do silêncio
num manto negro
imensidão enclausurada
Uma vela ilumina
pouco espaço ao meu redor
à direita um vulto
medo e frio, qual será pior?

Há horas aguardo
desde que acordei
nenhum ruído, nem idéia
é o resquício do que sei

Me levanto vagamente
e caminho passo a passo
pedras e umidade
na parede em que me aparo
sinto-a com o tato
pois quase não há visão
enfim uma novidade
em meio a solidão

Percorro-a com as mãos
e sigo a construção
limo entre os dedos
e estranhamente
agradável sensação
Defino o espaço
nove por nove
é o que tenho
o tamanho do fim que meço

Enquanto andava
tocava com os pés nus o chão
frio e duro
um corte, nada sinto
Sento-me novamente
agora em um novo canto
A sensação é a mesma
o escuro ainda é um manto

Me deito no chão imundo
Um lágrima que não sai
espero algumas horas, enquanto
a luz da vela se esvai.

Ingrid
12/abr/06

Não há como manter a luz sempre acesa


Escura insconsciência

Lugares não acessíveis
Onde me escondo, estudo
Arquivos restritos
Locais proibidos

Onde o pó se mistura com a lama
E a água da chuva cai
O frio agora é hipotermia
A proteção a mim negada
Tudo exatamente como eu temia

Sou o conjunto de fotos na lixeira
De lembranças esquecidas
Memória inadvertida
Que aos mortos e enterrados
Sem aviso ressuscita

Jogo-me em seu abismo
No seu fim: nenhum começo
Nada há a me oferecer
No entanto eu desejo

Só porque não posso ter
Só porque é impossível
Porque é irreal
E porque não faz sentido

Excluo-te e incluo
Sem ordem aritmética
Meu ritmo, descompasso
Sem função, sem ética.

Direito conquistado
Não é direito
Agir mesmo com dúvida
É acerto
A tese que comprova
Traz alento
Ao que não tem prova
Há tormento.

Meu desalento é meu desejo
Meu ócio é meu movimento
Em direção contrária
Afasto-me inconscientemente
Para não ser
Devorada pela consciência
Que insiste em se manter
Inconsciente.


Ingrid
26/jun/06

Tem certos cortes que ninguém mais pode estancar



Marés e sal

Sinto a distância entre eu e o horizonte...
E ainda assim parece perto...
Aonde o Sol vai se esconder...
Sem certezas...nova noite...nova lua...
Algumas rosas...seu perfume...desconheço...
Seus espinhos me são mais familiares...
E em minha pele...corte...
Pra sentir, lembrar que estou viva...
Vermelho vivo...uma gota...
Só pra me lembrar
Da cor da rosa...
Aquela que é especial...
Aquela da qual conheço o perfume.

Ingrid
3/abr/06

Quando se segue sozinho nunca se pega o caminho errado

Pedaço de mapa


Costumava ter um pedaço de plano
E não há como seguir um novo caminho sem abandonar outro
Novos mapas e uma velha bússola
Qual peso indica a medida ideal?
Talvez tenha percebido que precisasse voltar
e que pros seus limites estava longe demais
e sem guarda-chuva como sempre...
e nestes dias sempre chove!
Talvez não tenha ido longe o suficiente
pra saber se era o melhor caminho
Sei que caminhou a passos largos, confiante e sem destino
Deixou pegadas sobre as flores pisadas...
sem culpa e sem maldade..agora eu sei
A injustiça é o teor bruto do sentimento sincero não compartilhado
e ainda assim é puro
Alagado de esperanças caminha sem se afogar
Entre dias de cinza escuro
e outros em tons de laranja lá pras seis da tarde
Se a saudade apertar...como eu quisera...
Lembranças de momentos simples e preciosos
Alguns olhares de certezas
Algumas sombras de dúvidas
Muitas gargalhadas desprecupadas
Dois pólos com carga negativa
repelem-se...é fato
Destinos traçados por forças imutáveis
e ainda assim
a energia contida...
embora sujeita a mudanças...
agora encontra-se lá...
da mesma forma...
incondicional.

Ingrid
11/abr/06

A busca pela dor compartilhada é maior que pela redenção


Âmnio

Um segmento natural
Uma coisa estranha, mas natural
De fato uma mutação constante
Me mudou até o semblante
Estranhas sensações compartilhadas
Nas entranhas densas já se vê luz
E alguns barulhos estranhos
Que não pode ouvir direito
Um destino certo e inevitável
Dor com sabor doce
E aguardada com ansiedade
Embora mais próximo impossível
sinto que estará mais próximo quando
não mais for parte de mim
e sim parte do mundo
De quais origens genéticas sairão tuas asas?
Não sei,
Mas já enche de paz minha vida
e de luz a minha alma...
Enquanto imerso na água
Mal sabe das dores do mundo
Ou talvez
Eu não saiba das dores e solidão
do escuro dentro de mim
em que está agora...
E aguarda a liberdade e a luz
Enquanto isso aguardamos...
Ambos imersos em hormônios e sonhos.

Ingrid
05/out/2007