09 julho, 2009


Música de você

O meu dia nem raiou e essa cólica discreta
Me percorre um calor
Como no dia em que me beijou
e sorriu com minha reação
Sonho estar em seus braços
e assim estou livre
mesmo presa a uma não realidade
penso nos por quês
que nunca irei compreender
e jogo no fogo a esperança exasperada
No seu cheiro
que na minha memória resiste, reside
a minha doce compreensão
daquilo que não posso ter
e ainda não posso deixar de amar
de quem não sei como foi o dia
a quem sinto quando falta o ar
a quem entreguei
o que não podia dar
de quem não posso esperar
ao menos um olhar
Minha solidão
é a escolha de não mais acreditar
é a necessidade
de me ausentar
do amor que não compreendo
que me é irreal
do contato simples, banal
Meu amor é coisa íntima
incompartilhável, profundo e infindável
amargo, puro e infalível
Amo-te em carreira solo
e em minha alma
descansa a sua presença irreverente
algumas colcheias e
semifusas confusas
e assim
acompanhada
por seu perfume e pela música
não me sinto mais sozinha.

Ingrid Oliveira
09/06/06

Desafogar

O tempo cura ou destrói tudo?
E o destruir de tudo
é ruína?
é tragédia?
é o pó?
Caminho em pensamentos vagos
para esquecer a dor
mas ouço seus passos
a me acompanhar
e vem
sedento de nada, como eu
bebo de paixões alheias
quase a me afogar
numa golada em amores falsos
que se fecham sob pilhas de celulose
Órgãos partidos, defeitos nus
crises torrenciais
dores exponenciais
partindo, quebrando, moendo...
enquanto tentamos manter a ilusão
de ainda haver ar
sob toda essa água
e permanecemos
imersos na não gravidade
do acaso.

Ingrid Oliveira
08/07/09

Estagnado

No inconsciente repousa, inconstante e improvável,
um desejo
profundamente real
e dolorosamente irrealizável
Dorme entre sonhos e pesadelos
de um futuro que nunca virá
além de dentro de uma mente cruelmente masoquista
E absorta em não realidade, conformada
de sua não possibilidade
de sua não condição
de sua não vida

Como se uma única parte, extremamente pequena,
mantivesse as funções vitais
por uma questão obviamente instintiva
e incontestavelmente inútil

A morte não se resume
À não função vital,
Á não regeneração celular
Á não possibilidade de mutação
Talvez venha antes,
quando as lágrimas já não fazem mais sentido;
quando os medos tornam-se companhias
na escura solidão resignada
de pensamentos lamacentos
meticulosamente planejados
para tornar a dor real
menor do que a dor psíquica

A morte é mais
e mais sensível que o toque
e vem quando se decide que venha,
quando a morfina
passa a fazer parte do organismo,
quando os poros entopem de angústia,
quando o torpor é mais poderoso
que toda a vontade antes regente;
quando a dor
é maior que a prece,
maior que a fé
ou maior que a vontade de te-la de volta

A morte não é
a ausência de dor,
nem de possibilidades,
nem de felicidade
é só uma ausência
numa constante infinita
sem saída
e sem explicação.

Ingrid Oliveira
06/07/09